No meu bairro, todo mundo conhece todo mundo. De modo que
todo mundo reparou no ser humano peculiar que começou a frequentar a rua. Não
importava o tempo, o figurino dele era o mesmo: short de nylon escuro, regata
branca que deixava tufos de pelos do peito
à mostra e chinelos. E arrastava pelas coleiras três pequineses ruivos –
reparando bem, o cara também tinha cara de pequinês, com a arcada dentária
inferior projetada para frente e cabelos no estilo chitãozinho tingidos de
acaju. Imediatamente, o ser ganhou o apelido de Cara de Pequinês dos
frequentadores matinais da padaria, time ao qual me incluo – até hoje é meu
ponto de encontro para tomar um suco de mamão com laranja após as caminhadas.
Cara de Pequinês não fazia questão de ser simpático e não
cumprimentava ninguém na rua. Tampouco recolhia o enorme rastro de fezes
produzido por sua exótica matilha, em três edições diárias, fiquei sabendo, para desespero e ódio mortal
das zelosas octagenárias da rua, que se esmeravam para deixar suas calçadas
limpas.
De nada adiantavam os apelos, os saquinhos oferecidos, as
folhas de jornal. Cada abordagem tinha como resposta um olhar de pouco caso.
Nem os berros de “limpa a merda do seu cachorro, babaca”proferidos de dentro
dos carros que circulavam na rua surtiam efeitos.
Até que um dia uma daquelas criaturas fofinhas ejetou seu
número dois na calçada da Dona Erotildes, a mais fofa e querida vovó do pedaço.
Na PRESENÇA de Dona Erotildes. Munida de
muita assertividade e linguajar erudito, Dona Filomena interpela Cara de
Pequinês com vassoura em punho, pedindo educadamente para que ele limpasse a
bagunça.
“Enfia a vassoura no cu, véia filha da puta”, cortou o
silêncio daquela manhã de domingo.
O bate boca desencadeado com a troca de palavras pouco
gentis foi ouvido a 200 metros do epicentro da baixaria. Quando chegamos lá, os
frequentadores do salão das Testemunhas de Jeová já haviam feito o deixa-disso.
Cara de Pequinês sai a passadas largas arrastando os totós, Dona Erotildes é
socorrida por uma das testemunhas de jeová com um copo de água com açúcar e aos
poucos a rua volta à habitual modorra.
Mas aquilo não ia ficar barato. Ninguém chama Dona Erotildes
de filha de puta impunemente.
Aquilo ficou martelando a minha cabeça por dias, enquanto
caminhava pelo bairro. Até que fui obrigada a trocar o horário do meu exercício
para a noite. Infortúnio, coincidia com o passeio dos quatro pequineses. Passei a segui-los, com saquinho e pazinha em
punho, escondida pela escuridão, coletando todo o produto interno bruto dos
fofuchinhos. Afinal, sou uma cidadã exemplar e devemos zelar pelo bem estar da
comunidade...
As caminhadas também me levaram a descobrir onde ele morava.
E nada como um simpático papo com um morador daquele prédio para descobrir o
andar e o número do apartamento que abrigava o canil.
Então é Natal. Época de lembrar de pessoas que marcaram
nosso ano. Juntei num saquinho ziploc várias das lembrancinhas recolhidas ao
longo das últimas semanas. Uma bela escultura de mais de quilo. Depois, ajeitei
o pacote numa linda caixa de presentes, que, por sua vez, foi enfiada numa
caixa do Sedex. Que foi encaminhada com um belo cartão com uma mensagem de amor
e paz, nasceu Jesus, chegou o Natal.
Cara de Pequinês nunca mais foi visto aqui na rua.